sexta-feira, 18 de junho de 2010

LEMBRANÇA DE UMA TEMPESTADE

Era um boteco imundo perto da Higienópolis.
Refugiei-me nele quando a tempestade
caiu sobre a cidade, entupindo os esgotos
e mudando a avenida em sujo lençol d´água.
Entre putas escrotas e burros-sem-rabo
eu escutava a chuva cair nos telhados.
Minha infância voltava, e era a velha música
imbecil de um piano sempre avariado.
O presente e o passado se uniam nas bátegas.
Os bueiros cantavam a canção urbana
da água escura impedida de escorrer nos cantos.
Pedi um sanduíche e um copo de cachaça.
Depois foi o céu claro e veio a nuvem branca.
E a luz do sol voltou a imperar na cidade.

Confissão


esperando pela morte
como um gato
que vai pular na
cama

eu sinto muito pela
minha esposa

ela verá este
corpo
pálido
rígido

sacudirá uma vez
talvez
outra:

“Rums!”

Rums não
responderá.

não é a minha morte que
me preocupa,
é minha esposa
deixada com esta
pilha de
nada.

eu quero
que ela saiba
no entanto
que todas as noites
dormindo
ao seu lado

mesmo as discussões
mais inúteis
foram esplêndidas

e as difíceis

palavras
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:

eu
te amo.

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.


Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
-que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

PEDRAS

PEDRAS: um poema de Cecília Meireles

Eu vi as pedras nascerem,
do fundo do chão descobertas.
Eram brancas, eram róseas,
- tênues, suaves pareciam,
mas não eram.


Eram pesadas e densas,
carregadas de destino,
para casas, para templos,
para escadas e colunas,
casas, plintos.

Dava a luz da aurora nelas,
inermes, caladas, claras,
- matéria de que prodígios? -
ali nascidas e ainda
solitárias.

E ali ficavam expostas
ao mundo e às horas volúveis
para, submissas e dóceis,
terem outra densidade:
como nuvens.

do livro Poemas Escritos na Índia.

Template - Dicas para Blogs