domingo, 13 de junho de 2010

Solidão da Alma

 

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Talvez não haja no universo sentimento mais profundo do que este: solidão interior. Aquela solidão da alma. A constatação fria e inegável de que, não importa o quanto eu esteja cercada de coisas e pessoas, ou o quanto outras criaturas tenham contribuído com a minha caminhada, em minha consciência eu estou sempre só, comigo mesma. Enfim, sós... Eis que, em algum momento de minha existência, minha consciência me força à transformação, à total, profunda e sincera revisão de tudo em que vinha acreditando. Ela me faz olhar novamente para tudo o que fiz, construi e aprendi e, de forma implacável, me coloca frente à frente com tudo que sou, de verdade, e nem sequer imaginava.

Não há fuga possível, não há como ou onde esconder-me. É como se todas as máscaras caíssem ao mesmo tempo e eu fosse obrigada a olhar num espelho vivo e límpido, onde estão refletidas todas as minhas verdadeiras emoções, idéias, necessidades e tropeços. Meus medos e minhas carências.

E, ao me deparar com tanto da minha verdadeira essência que eu desconhecia e ignorava, é como se algo se rompesse dentro de mim e criasse um imenso vazio, que me engole e deixa sem chão e sem teto, flutuando, em completa suspensão. É como se eu vagasse dentro de meu próprio vazio interior.

As referências momentaneamente se confundem, como se, o tempo todo, eu estivesse seguindo um mapa falso, para um tesouro que idealizei, mas nunca existiu.

As crenças parecem diluir-se, como se não passassem de bonecos de açúcar, que criei apenas para me adoçar a existência, enquanto estava ocupada demais sonhando acordada.

As certezas se transformam em dúvidas, como se tudo o que eu sabia não passasse de um enredo destinado apenas a justificar a mim mesma.

O que fazia sentido fica pálido e borrado, como se o meu universo fosse apenas o produto de uma imaginação muito fértil, ou a lembrança de um sonho muito vívido, ou uma alucinação.

E tudo o que tenho é apenas a mim mesma, em toda a minha realidade nua e crua. Nem mais, nem menos. Sou eu me despindo para mim mesma, como nunca havia feito antes...

E, então, vem a dor... A dor de perceber que, talvez, essa solidão seja apenas reflexo de uma escolha, uma postura, uma crença equivocada. A dor de saber que quem se afastou fui eu mesma, num movimento de defesa infantil e inconsciente, numa fuga assustada por medo de sofrer, ou de perder, ou de ser esquecida. A dor de me dar conta de que, o tempo todo, fugi apenas de mim mesma e que os outros apenas respeitaram a minha fuga, deixando-me fugir.

E a dor, às vezes, é tanta e tão grande, que faltam forças para sair do lugar, falta energia para fazê-la parar ou mesmo para olhar para ela. Ela dói no corpo e na alma, dói por dentro e por fora, dói pesado e profundo.

Não pretendo anestesiá-la, não pretendo também ignorá-la. Não desta vez. Quero experimentá-la até a última gota, se possível, se eu suportar. Quero abraçá-la para que ela se transforme em luz, a luz que ainda não tive coragem de buscar para me orientar em meus caminhos.

Não quero apenas passar por ela, mas passar com ela, caminhar com ela, compartilhar seus segredos, conhecer sua história. A minha história.

No entanto, eu e ela estamos no mundo. E, estando no mundo, caminhamos com outras pessoas. Pessoas que estão em outros momentos, pessoas que têm outras necessidades, pessoas que só conseguem ver em mim o que já conhecem, sem conseguir, nem de leve, suspeitar do que também sou, e elas não conhecem e não conseguem perceber e compreender. E nem mesmo eu conheço bem...

E não há como explicar. Não há como colocar em palavras essa solidão que dói em meio a tanta gente, essa solidão plena que me faz sentir única como nunca me senti, essa solidão que me afasta de tudo e de todos e, ao mesmo tempo, quer desesperadamente estar em meio a outros que possam, ao menos, acolhê-la, exatamente como ela é.

Não há como decifrar, não há como abrir o peito e mostrar o que está acontecendo bem ali dentro, onde a dor decidiu se instalar. Não há como mostrar o coração que dói, ao lado daquele que bate, pois só eu o sinto. Só eu sinto o que ele sente...

E, na nossa dor, somos cúmplices um do outro, nessa solidão que é triste, mas não é tristeza. Essa solidão que assusta, mas não é medo. Essa solidão que machuca, mas não deixa ferida. Uma solidão que é mais que estar sozinho, pois é solidão da alma.
IMPORTA, CONTUDO, 
CAMINHAR HOJE, AMANHÃ E DEPOIS...
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Minha estrada sempre foi tortuosa e sombria, pois eu assim a tracei com meus próprios pés. De onde eu vinha, trazia só cicatrizes de cada espinho arrancado, de cada pedra pisada.


Tudo foi sempre muito escuro e triste no meu caminho, pois só a solidão parecia querer me acompanhar. Ainda assim, eu caminhava. Passo a passo, eu seguia a minha sina. A sina que a mim mesma impus.


Caminhava cegamente, até que um dia cansei-me. Cansei-me das dores, cansei-me da angústia, cansei-me de mim: inútil e miserável andarilha do nada. Cansei-me a tal ponto que desisti de caminhar e deixei-me ficar ali mesmo, sentada à beira da estrada, largada e indiferente. Indiferente ao tempo, indiferente ao espaço, indiferente à minha própria razão.


Minha consciência, porém, não me dava tréguas. Dizia-me a todo instante: "Importa, contudo, caminhar hoje, amanhã e depois."


"Caminhar... Caminhar... Caminhar para quê? Caminhar para onde? De onde eu venho só trago farrapos do que restou de mim. Para onde eu vou nem mesmo eu sei!", pensava de mim para comigo.


"Importa, contudo, caminhar hoje, amanhã e depois.", repetia-me sempre aquela voz na consciência. E, quanto mais eu ouvia, mais angustiada ficava e mais me questionava.


"Caminhar... Caminhar é só o que tenho feito desde sempre. E onde foi que cheguei? De que me valeu tanto sacrifício? O que foi que ganhei com tanta caminhada?", questionava-me revoltada e incrédula.


Mal terminava eu a minha queixa quando, no mesmo instante, fez-se luz em meu caminho. Toda a minha estrada ficou à vista, tudo o que eu era e fizera estava então à mostra. Sem sombras, sem escoderijos, sem dúvidas...


Só, então, foi que pude perceber que em cada espinho onde eu me machucara antes havia nascido uma flor... Em cada pedra onde eu sangrara meus pés havia brotado uma fonte... Em cada pegada deixada para trás com tanto custo brilhava agora uma luz...


E, bem ali, onde eu estivera sentada questionando-me, estava Jesus, o Mestre Eterno, olhando-me com imensa doçura, esperando e repetindo pacientemente: "Importa, contudo, caminhar hoje, amanhã e depois". (Lc 13:33).

NÃO SOU ANJO, NEM DEMÔNIO


Às vezes eu acho que já vi de tudo, que já não me decepciono mais com as pessoas, que nada mais me choca ou causa mal estar. No entanto, quando eu menos espero, a vida vem, me dá uma rasteira, põe o dedo na minha cara e diz: "Tome!", mostrando como é limitada ainda minha percepção e compreensão das coisas...


Isso cansa, às vezes, porque parece que, por mais que a gente caminhe, nunca sai do lugar. Parece sempre que, por mais que a gente tenha subido degraus, está sempre no mesmo ponto da escada, olhando tudo da mesma perspectiva.


Não sou anjo, nem demônio, e, por isso mesmo, prefiro pensar em mim mesmo como alguém tão capaz de acertar e de errar quanto qualquer outra pessoa. Gosto de acreditar que serão dadas a mim as mesmas oportunidades que aos outros. Quero acreditar que somos todos iguais, em direitos e deveres, em necessidades e buscas, pois, de outra forma, não faz sentido pra mim todo o esforço que fazemos para sermos pessoas melhores. Prefiro sempre pensar que estou lado a lado caminhando com todas as outras pessoas.


E, justamente por não ser anjo, decepciono-me às vezes com as pessoas ao notar que, muitas delas, tentam usar a sinceridade e a honestidade de outras pessoas pra satisfazer suas próprias necessidades de aceitação, tentando justificar suas próprias atitudes, suas próprias escolhas e sua própria história.


Decepciono-me ao perceber que muita gente vê outras pessoas como se fossem de seu uso exclusivo, como se devessem enxergar as coisas pelos olhos deles, sem direito a usar os próprios olhos e lentes para olhar o mundo e interpretá-lo.


Decepciono-me com a capacidade que algumas pessoas têm de simplesmente ignorar o que está por trás das roupas, das palavras, dos gestos, da aparência e da cultura, sem se importar com o que está por dentro, bem lá dentro.


Decepciono-me com o desejo quase incontrolável que algumas pessoas têm de estragar o que é bonito, o que é puro e positivo, apenas porque têm medo de ser rejeitadas ou colocadas de lado, porque têm medo de ser diminuídas ou apontadas, porque têm receio de serem menos amadas.


Decepciono-me com outras tantas pessoas que cobram de outras que julgam mais fortes ou mais sábias, sem atentar para o fato de que também são humanas, também sofrem e também se destróem emocionalmente em muitas situações.


Decepciono-me ao ver que muito do que se diz está sempre sendo analisado para ser usado contra a própria pessoa e nunca a favor de alguém, a favor de algo bom, a favor de algo fora dela.


Decepciono-me quando vejo alguém tentando fazer a diferença para melhor e as pessoas insistindo em usar essa diferença para o pior, limitando idéias, restringindo sentimentos e minando forças.


Decepciono-me quando vejo uns abraçando outros, usando esse abraço como escudo e justificativa para seus próprios sentimentos.


Decepciono-me quando vejo pessoas assumindo posturas apenas para se justificarem perante os outros, nunca para serem coerentes consigo mesmas ou com a sua consciência.


Não sou anjo, nem demônio, porque sou imperfeitamente humana, ou humanamente imperfeita, tentando crescer, aprender, participar e colaborar.


Não sou anjo, nem demônio. Sou apenas alguém que tem aprendido, a duras penas, que as pessoas também não são perfeitas e que muitas delas nem sequer se importam com isso ainda.


Sou apenas alguém que fala o que sente e paga caro por isso, mesmo quando fala com o coração cheio de luz, tentando desintegrar alguma mágoa que, como ser humano, possa trazer lá dentro.


Sou apenas alguém que luta com os próprios erros, mas que dorme tranquila todas as noites, graças a uma consciência limpa das más intenções de que tentam responsabilizar-lhe.


Sou apenas alguém que, sem ser anjo ou demônio, tem um pouco dos dois todos os dias, nas mínimas e nas grandes coisas.


Sou apenas alguém que ainda acredita que amigo sincero é aquele que aponta os erros e ajuda a transformá-los, e não aquele que se limita a olhar superficialmente para ver apenas o que é bom e agradável aos seus olhos, sem precisar correr o risco de dar sua face a tapa cada vez que vê algo em desvio na conduta daquele que considera como amigo de verdade.

Presente, passado e futuro...


O futuro ainda não existe e, quando chegar, deixará de ser futuro, para ser presente. O passado já deixou de existir e, quando existiu, ainda não era passado, mas, sim, presente. O presente é, portanto, o único momento que realmente existe para nós.


O que realmente conta é o momento presente. É no presente que devemos colocar nossa energia, nossa atenção, nossa concentração. É no presente que devemos investir nossa ação, pois é no presente que podemos modificar as consequências do passado e mudar as perspectivas e possibilidades para o futuro.


Cada novo fato, cada nova ocorrência em nossa vida, é um novo momento presente, que precisa ser vivido e observado em toda sua plenitude. É ele que deve ocupar nossa vida a cada instante. É nele que devemos buscar o sentido de nossa vida. É nele que devemos fazer o melhor que podemos em todas as situações e experiências em que nos envolvemos, pois tudo o que nos acontece tem uma relação com o que somos, tudo o que fazemos tem uma relação com o que nos tornamos.


Viver um momento de cada vez nos dá a oportunidade de aproveitar melhor tudo o que nos acontece, de viver mais plenamente toda experiência que se nos apresenta, de aproveitar mais os pequenos aprendizados embutidos em que cada pequena experiência, em cada pequeno evento, em que pequena ocorrência, em que cada sensação.


Na verdade, nada é tão insignificante que não mereça a nossa atenção. E, ao mesmo tempo, nada é tão importante que mereça nos absorver por completo. O mais importante é o equilíbrio em cada situação. Viver o presente e no presente, de modo que passado e futuro permaneçam interligados a ele, mas não sobrepostos. Vivenciar o hoje, mantendo o ontem apenas como referência e o amanhã somente como alvo. Lembrar sempre que é impossível chegar bem ao amanhã sem passar bem pelo hoje e sem abandonar o ontem.


A repetição mental de eventos passados nos consome energias que são importantes para a nossa saúde e o nosso bom desempenho no aqui e agora. Da mesma forma, a expectativa por eventos futuros cria tensões e ansiedades que também nos roubam energias essenciais para a nossa realização e felicidade no presente.


É preciso que nos convençamos que a nossa felicidade não se perdeu em algum lugar do passado, nem está escondida em algum canto do futuro. Ela está aqui e agora, já é nossa, mas nós não a vemos, tão absortos que estamos olhando muito à frente ou muito atrás de nós mesmos.


Quando nos desconectamos dos eventos passados e futuros para vivenciar plenamente os momentos presentes que, independentemente de nossa atenção ou vontade, seguem-se em nossa vida diária, nossa energia, focada naquilo que estamos vivendo na realidade, nos proporciona maior satisfação e maior riqueza de sentimentos, experiências, idéias, aprendizado e crescimento, enriquecendo também nossa própria bagagem interior como seres divinos que somos, como espíritos, como parte do todo maior. E é nesse crescimento e nessa compreensão de nós mesmos que encontramos a nossa felicidade.


Quando deixamos de nos focar no presente, permitindo que nossas idéias e pensamentos se apresentem de forma mecânica, sem que prestemos atenção a eles, sem que vivamos cada evento da forma mais intensa possível, perdemos o contato com a nossa parte mais íntima e a nossa própria realidade. Deixamos de perceber o que realmente queremos, desejamos, aspiramos e precisamos. Deixamos de notar quem somos e quanto somos importantes no contexto maior e, ao mesmo tempo, o quanto somos pequenos diante do Todo Maior.

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