sábado, 29 de janeiro de 2011

Sem medo de ser sozinho

 

  • É ótimo, sim, encontrar nossa cara-metade, mas também é possível ser feliz sozinho
    É ótimo, sim, encontrar nossa cara-metade, mas também é possível ser feliz sozinho
A sociedade impõe, implícita ou explicitamente, que para ser feliz é preciso ter alguém. A mensagem está nas novelas, nas músicas, nos filmes, nos comerciais. Mas, e as pessoas que ainda não encontraram a sua tampa da panela? Estão condenadas à rejeição, à tristeza, a fazer parte das mesas das crianças nas festas de casamento?

Segundo os especialistas, um relacionamento amoroso, é claro, só acrescenta à existência. Para a psicóloga Roseana Ribeiro, do Rio de Janeiro, encontrar a cara-metade é necessário não para ser feliz, mas para viver bem de acordo com a nossa natureza. Ela avisa que o encontro não é uma façanha fácil, mas nada é impossível se estivermos abertos aos bons encontros.

Há uma cultura, velada,
de dependência emocional,
ou seja, a sociedade nos faz acreditar que
a felicidade está em conviver com alguém.
Essa pressão pode estar relacionada à
necessidade de se constituir famílias

A especialista destaca, porém, que existe uma diferença gritante entre “estar sozinho” e “estar solitário”. “Estar solitário é viver com uma lacuna por preencher, é estar perdido em si mesmo, sem esperança de um dia melhor. Não é um estado que escolhemos, é um estado que decorre de uma série de questões. Uma delas pode ser a frustração de ter perdido ou o medo de perder o que nem existe ainda. Há os que preferem a sensação dormente da solidão à dor de tentar acordar para a vida”, teoriza. Já estar sozinho é estar consigo mesmo e, ao mesmo tempo, aberto para novos encontros.

“O importante é que a pessoa não concorde com este estado, mas aceite”, conclui Roseana. Isso evita, por exemplo, o isolamento. “Por mais incrível que pareça, sozinho também pode ser estar na companhia de apenas uma pessoa: por exemplo, a própria pessoa”, argumenta Paulo G. P. Tessarioli, psicólogo com título de especialista em sexualidade humana, de São Paulo.

“Quando se diz: ‘quero ficar sozinha’, provavelmente, a pessoa está querendo dizer que quer ficar a sós com ela mesma. É possível também ficar sozinha com alguém. Para mim, solitário é aquele indivíduo que prefere o isolamento e que, muitas vezes, se aborrece com os outros, ou que frequentemente critica as pessoas e até mesmo a sociedade e sai de cena, não convive com os demais, com os seus semelhantes”, opina.

Fora de controle
Ou seja, é possível ser feliz sozinho, sim; tudo depende da maneira com que a pessoa encara isso, pois há quem apele, mesmo sem perceber, para mecanismos de fuga. Um dos riscos mais comuns é extravasar o afeto cuidando de um bichinho de estimação.

“Ter animal de estimação é fantástico e traz muita alegria para o lar. Entretanto, nada melhor do que gente como a gente para que possamos evoluir, não é? Como evoluir se não trocar ideias, mudar de ideia e discutir com alguém?”, pondera a psicóloga Roseana Ribeiro.

“Na maioria dos casos, essas relações ultrapassam as fronteiras do imaginário, transformando animais em pseudo-seres humanos, ou seja, os tais animais passam a ter um status humano e são vistos como tal. É importante que se diga: tratar bem os animais de estimação é uma obrigação de quem os quer por perto, mas animais não são seres humanos”, ressalta o psicólogo Paulo Tessarioli.

Outro perigo de quem vive sozinho – principalmente de quem mora só – é adquirir um monte de manias, como organizar tudo de um jeito metódico ou simplesmente não arrumar nada e deixar a casa uma verdadeira bagunça.

Cobranças
 Já quem é bem resolvido com a escolha (ainda que involuntária) de estar “avulso” tem de lidar, em geral, com as cobranças alheias – como a da tia idosa que sempre pergunta à sobrinha quando vai casar ou, pior, “desencalhar”. A pressão familiar, de acordo com Paulo Tessarioli, é um reflexo do comportamento típico de nossa sociedade.

“Há uma cultura, velada, de dependência emocional, ou seja, a sociedade nos faz acreditar que a felicidade está em conviver com alguém. Essa pressão pode estar relacionada à necessidade de se constituir famílias. Porém, hoje, não faz mais sentido algum. Infelizmente, penso que vai demorar um pouco para que isso mude.” A dica é não se irritar com perguntas inconvenientes.

A cobrança dos amigos também deve ser encarada com naturalidade. Toda escolha tem seu preço. “Vale ressaltar que estar sozinho é uma escolha que muitas vezes está na contramão do que se espera socialmente de mulheres e homens. Esperar que as pessoas, de um modo geral, entendam e até apóiem essa escolha é querer demais”, diz Paulo.

Por isso, nada de temer passar recibo de “vela” se for convidado (a) a participar de um jantar ou balada em que só vão casais ou de fugir de situações em que a turma quer apresentar alguém especial. A melhor forma é tratar esse assunto com descontração. Caso já tenha se convencido de que não existe pessoa perfeita e que só se conhece alguém, realmente, a partir da convivência, você nem vai se incomodar com as interferências alheias.

Para finalizar, nem sempre quem está rodeado de gente está bem acompanhado ou se sente assim.

“Muitas vezes a pessoa em questão pode estar fechada a relacionamentos ou está emocionalmente pouco acessível, numa posição defensiva, o que dificulta que qualquer pessoa, mesmo que bem intencionada, se aproxime. Sabe aquela máxima de que não existe ninguém interessante? Difícil?

Por mais incrível que pareça, é mais fácil se justificar dessa forma do que olhar para dentro de si mesma e buscar respostas para o que está acontecendo”,

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