domingo, 23 de janeiro de 2011

Múltiplos eus, nossa verdadeira constituição


 Somos constituídos por diversos "personagens" sendo que todos estes se tornaram vividos por conta de importantes experiências passadas ao longo da vida. Se você já presenciou a personalidade de alguém, ou mesmo a sua, mudar da água para o vinho e de um minuto para outro, sabe sobre o que estamos abordando.


Existem situações onde perdemos totalmente a conexão com o Eu e nos encontramos literalmente possuídos por aspectos desconhecidos, porém, nossos. Trata-se de identidades provavelmente geradas em momentos difíceis e assustadores do passado permanecendo congeladas no curso das nossas histórias de vida, como se estivessem dentro de bolhas no tempo visando proteger a nossa integridade.


Por não conseguirmos lidar com determinadas situações de vida, pedaços nossos ficam retidos na nossa linha do tempo enquanto o resto de nossa totalidade continua seguindo em frente.
Dentro deste contexto, já notou que um evento aparentemente aleatório pode disparar as mais diversas reações em cada pessoa?


- Já se perguntou sobre quais os motivos dessas situações ocorrerem praticamente em todos nós?


Interessante notar as mais diversas culturas conhecerem este mesmo assunto pelas mais diversas maneiras. Isso por si só já fala de uma verdade que poderia ser concebida como universal aos seres humanos.
Vejam a seguir apenas algumas indicações a respeito.


Sabemos que ao redor do mundo existem inúmeras tribos xamânicas. Elas existem nas regiões brasileiras indígenas, peruanas, nas regiões Russas do Altai, entre outras tantas. Nessas culturas, existe uma modalidade de cura emocional e mesmo de cura para doenças costumeiramente chamada de "Resgate de Alma".


Nesta, o Xamã entende que um pedaço da alma da pessoa em aflição se encontra escondido em algum local e por conseqüência impedindo-a de ter saúde. No procedimento de cura que conheço, o Xamã faz uma viagem psíquica ao interior da pessoa, encontra-se com o pedaço da alma escondido e não atuante na totalidade, negocia para que este volte a fazer parte da alma total do indivíduo mostrando a sua importância para a completude da vitalidade e alegria.


Muitas vezes o resgate é penoso e o pedaço de alma conta sua história e também o motivo pelo qual se mantém exilado e o tempo em que se escondeu. Não poucas vezes este pedaço aparece numa vivência de quando a pessoa era criança, mostrando o lugar onde se esconde, na maioria das vezes por medo.


Algumas vezes o resgate também se dá por algum episódio recente.
Durante o processo, o enfermo permanece deitado ao lado do Xamã e este faz sua viagem resgate até que o mesmo promova cura, libertação e reintegração. Quando o acordo de volta da alma é selado, geralmente o Xamã, num ato simbólico (ou não) sopra o pedaço de alma faltante no topo da cabeça e coração da pessoa. Uma cerimônia sagrada e, na crença xamânica, altamente eficiente.


Outro modo de reconhecer e resgatar esses nossos aspectos traumatizados passa pela área da psicologia, numa analogia de quando aspectos do inconsciente que comandam a cena podem integrar-se de modo saudável na vida. O reprocessamento que o EMDR promove também funciona como uma abordagem altamente competente dentro da psicologia e que ajuda a reprocessar os momentos difíceis que passamos. Será mais explicitado a seguir.


Também a física quântica aborda o tema ao pesquisar sobre universos paralelos nos quais poderíamos coexistir e numa conexão desconhecida, todos os eus seriam afetados ininterruptamente com a qualidade das vivências experenciadas por cada um em sua lâmina de realidade. Ou seja, cada eu seria um aspecto total em si e de algum modo estaria influenciando os outros eus.


A nossa questão refere-se à invasão que estes supostos eus, mediante suas histórias, frequentemente fazem em nossas vidas, muitas vezes ocasionando estragos indesejáveis em condutas reconhecidamente escolhidas e honrados por nós.


Ocorre que quando o eu assustado e congelado na bolha se percebe ameaçado, acaba emanando seus conteúdos emocionais para fora da mesma de modo totalmente desconexo e, pior, sem avisar. Nesses momentos somos invadidos por reações "cegas" que ao nos atravessarem exteriorizam-se de forma desmedida.


Costumam se apresentar pelos excessos ou mesmo pelo medo, acanhamento ou retração. E a incógnita para nós, leigos do real sentido que move estes aspectos, é pensar logo depois e de modo racional o porquê de não conseguirmos frear estes impulsos tão estranhos e paradoxalmente conhecidos.


Nessas ocasiões, dissociados de nós mesmos, aspectos que permanecem paralisados no tempo do sofrimento surgem como fantasmas atuantes no palco de nossas vidas e nenhum de nós esta livre de ser vitima de si mesmo.
Todos passaram experiências de difícil digestão. Por conta disso, paralisamos e congelamos estes Eus em meio às historias e entendimentos da realidade de modo disfuncional, associando crenças irracionais exatamente pela visão distorcida que situações de trauma promovem.


A pergunta que fica é: - Como tratar dessas possíveis possessões de nós para nós mesmos quando ficamos totalmente descontrolados? E o pior é sabermos que fatalmente essas situações se repetirão em nossas vidas se não tomarmos alguma atitude... E que atitude poderia ser esta quando inúmeras vezes custamos a acreditar que fomos nós mesmos que agimos de modo violento, agressivo, ou mesmo nos esquivando quando supostamente deveríamos ter agido?


Dificilmente, temos noção exata sobre o que do mundo externo dispara em nós determinadas reações emocionais e irracionais. Quando compreendemos, mesmo assim, há dificuldades em acessar chaves de transformação interior.


Na abordagem do EMDR (busque mais explicações sobre em outros artigos meus sobre EMDR) podemos acionar e trabalhar esses "Eus" negociando com eles, na real possibilidade de libertá-los de situações difíceis.
Por intermédio do EMDR, o Eu consciente, numa atenção dual consegue entrar em contato com estas estâncias sofridas reprocessando conteúdos congelados que ressurgem sem aviso prévio e em nome da sobrevivência de algum momento antigo...e desconectado com a realidade total do momento presente.
Dá o que pensar, não é?


Uma das nossas metas existenciais refere-se a conquistarmos o status de sermos de verdade senhores de nós mesmos, movidos por uma completude de experiências saudáveis.


Desejo que todos nós possamos usufruir da vida em meio aos seus supercoloridos tons. Que possamos sair dos lugares que nos paralisam com a maestria de quem realmente participa. E que possamos nos sentir literalmente VIVOS!


Tenha o EMDR como um dos caminhos possíveis.
Oriente-se e seja feliz. 2011 - Escolha ser este, o Ano da sua transformação. Aproveite!


Silvia Malamud

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