domingo, 16 de janeiro de 2011

Chuva


A chuva é meu fetiche,
meu feitiço,
minha poesia
(é o atalho preferido da minha caneta).

A chuva me alegra,
me acalenta,
me acolhe.

Gosto do prenúncio da tarde nublada,
da garoa,
da gota pesada que despenca da árvore,
da poça que prolonga o caminho.

Gosto das madrugadas chuvosas,
dos pingos que escapam pelas frestas das telhas
e encontram meu rosto,
a página do meu livro.

Ignoro previsões do tempo
(o tempo é mágico, é imprevisível).

Ignoro,
também,
guarda-chuvas,
enfeia a cidade,
atravanca a calçada
e depois de usado se torna um estorvo;
já o guarda-chuva fechado simboliza o pessimismo,
é para quem acha que pode chover,
quem está na chuva e não quer se molhar.

Há quem chame de precaução,
mas para mim o precavido
não passa de um pessimista.

Gosto de permitir que a chuva me alague,
me naufrague.

Gosto do banho de chuva,
do banho de infância,
do “vem pra dentro menino”.

Gosto da chuva fina,
mais insolente.

Gosto das tempestades,
as mais furiosas.

Gosto do abraço e do beijo sob a chuva.

Gosto da chuva que molha a praça,
os cabelos da morena,
mas não termina a festa.

Gosto do meu licor forte e com chuva.

Gosto de chover e sempre chove em mim,
mesmo quando não chove.

No entanto,
nunca espero que o pluvial e o fluvial,
no seu eterno espetáculo de amor e ódio,
invadam o dia das pessoas com arrogância,
com descaso,
de mãos dadas
e que o desespero e a aflição
sejam as cenas de todos os capítulos.

Quando a água alcança o meu peito,
o quadro da minha sala,
a parede da minha alma,
não é mais o poeta quem chove.

As águas de março fecham o verão,
mas são as de abril que saúdam o inverno.

Sem nenhuma promessa.

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