sábado, 29 de janeiro de 2011

Adeus CD Velho, Feliz Vinil Novo


A geração criada com toda tecnologia do
mundo moderno descobre os prazeres
dos discos LP




Em meio a crise de vendas de CD e aumento dos downloads gratuitos, uma das únicas boas surpresas para os executivos da música em 2011 vem de uma mídia inesperada e, para muitos, acabada há anos. O fato, observado nos últimos anos, é que um número cada vez maior da chamada 'geração MP3' está comprando, além de iPods, novos toca-discos - ou limpando a poeira daquele dos seus pais - e aumentando a sua própria coleção de vinis, fazendo os discões rodarem por mais uma vez.


Uma reportagem da revista Times publicada no ano passado chamou a atenção da nova mania, cada vez mais comum nos corredores de Harvard: a reunião de jovens nos dormitórios para ouvirem e trocarem informações sobre seus LPs.


Percebendo essa movimentação, as gravadoras americanas não perderam tempo em investir na moda. Artistas internacionais já lançam simultaneamente no mercado o CD, o vinil e o podcast digital de seus últimos álbuns, potencializando a venda para todos os gostos musicais, seja para aquele que preza pela portabilidade ou pela qualidade sonora.


Além disso, as capas dos novos vinis são cuidadosamente desenhadas, e o design moderno do disco - que não é mais exclusivamente redondo, vindo em formato de coração ou triangular - busca atingir o público mais jovem. ''Eu acredito que, em termos qualitativos, tudo o que você pode fazer hoje no vinil também pode gravar em uma mídia digital'', afirma o músico e produtor musical João Vidotti, que enxerga que o afeto dos consumidores com o vinil vai além da sua sonoridade. ''Para o fã da banda, ter o vinil é algo especial. Em uma época em que a música perdeu sua materialidade, acho que isso é o que mais conta'', reflete o músico.


Tudo indica que o barulho de uma nova velha onda está ressoando no ar: em 2009, a loja online da Amazon declarou ter feito um estoque de mais de 250 mil discos de vinil por causa do aumento na procura dos velhos bolachões. No ano passado, foram estimadas as vendas - a maioria em lojas de música alternativa e em sebos - de 2,5 milhões de LPs ao redor do mundo, um aumento de 33% em relação a 2009. Qual é a explicação para esse saudosismo musical, em plena era da música online? ''Tem muita gente que vai dizer que se trata do som. Para mim, o que faz a diferença é o ritual que envolve o LP'', explica Carlos Guilherme Fortes, conhecido pelos amigos como Fofão, e que possui uma coleção modesta, mas valiosa, de LPs antigos. ''Eu sou rato de sebos, algumas vezes eu gasto uma tarde procurando os sons em vinil que eu gosto'', admite.


O estilo musical mais apreciado pelos consumidores do vinil também indica uma tendência divergente do senso comum com os campeões de venda. Nada de NXZero e Justin Bieber - entre os LPs mais vendidos estão lançamentos do Radiohead e de Wilco, além dos clássicos de Beatles e Pink Floyd. No Brasil, a tendência é seguida pelo lançamento do novo álbum da Pitty e o relançamento de 'Cabeça Dinossauro', clássico do Titãs. ''Hoje o mundo tem apenas singles e sucessos únicos, e é difícil encontrar discos conceituais. No vinil, o lado A tem uma função e o lado B tem outra, é uma percepção diferente da música'', analisa Fofão, que tem entre os discos preferidos da sua coleção as obras de Charles Mingus e de John Coltrane.


O fato é que, no período entre 2008-2010, a Indústria musical vendeu 30% a menos em CDs e, no mesmo período, houve um aumento de 47% na venda de discos de vinil. Ainda que, em números absolutos, as vendas não representem grande coisa no orçamento, ela pode apontar o início de uma nova tendência musical. ''Os CDs foram substituídos pela troca de arquivos online, os discos estão na moda outra vez porque não têm substitutos, e são muito mais bonitos de colocar na estante'', brinca Fofão, destacando a mobilização em volta do toca-discos como outro ponto importante. ''É, acima de tudo, uma experiência comunitária. É comum eu me reunir com amigos só para ouvir músicas. Cada um traz seu LP preferido e uma caixa de cervejas. A noite está feita'', completa. O universo das tendências continua imprevisível, e o mundo vai girando como um bom e velho vinil.

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