domingo, 13 de junho de 2010

A SERPENTE E O VAGA-LUME



"Conta a lenda que uma vez uma serpente começou a perseguir um vaga-lume. Este fugia rápido, com medo da feroz predadora e a serpente nem pensava em desistir.

Fugiu um dia e ela não desistia. Dois dias e nada... No terceiro dia, já sem forças, o vaga-lume parou e perguntou à serpente:

- Posso lhe fazer três perguntas?
- Não costumo abrir esse precedente para ninguém, mas já que vou devorá-lo mesmo, pode perguntar... - respondeu ela.
- Pertenço à sua cadeia alimentar? - continuou o vaga-lume.
- Não. - respondeu a serpente.
- Fiz algum mal a você? - tornou o vaga-lume.
- Não. - disse novamente a serpente.
- Então, por que quer acabar comigo? - questionou o vaga-lume.
- Porque não suporto vê-lo brilhar... - justificou-se a serpente."


Autor desconhecido


É uma pena que, no Ocidente, graças à tradição judaico-cristã, a serpente seja sempre símbolo de traição, inveja e maldade. Ela não tem nada com isso. Ela apenas age de acordo com a sua natureza, que lhe foi dada por Deus, cumprindo a sua missão neste planeta. Se ela nos parece traiçoeira e malvada é porque nós a enxergamos assim, transferindo-lhe as qualidades que são nossas e que não somos capazes de admitir ou ver em nosso coração.


Apesar desse preconceito, a fábula vale pela reflexão. É bem triste constatar que ainda existam pessoas como a serpente desta história... O ideal seria que soubéssemos ajudar os outros a brilhar para que, assim, o nosso próprio brilho pudesse aumentar e servir de farol para outros tantos que ainda precisam de uma "estrela guia" à frente para saber o caminho a seguir.


Somos tão cegos em nosso orgulho e egoísmo que não percebemos que, ao invejar o brilho do outro, tentando impedi-lo de emitir sua luz, embotamos nosso próprio brilho, escondendo a nossa luz sob as trevas de nosso próprio ego. Não percebemos que também brilhamos, que em nós há a mesma luz e que só depende de nós fazê-la brilhar mais e mais longe e com mais intensidade, na medida em que colocamos o nosso brilho à disposição dos outros. Não entendemos que o nosso crescimento espiritual é diretamente proporcional ao crescimento espiritual dos que estão à nossa volta e que, para crescermos, é necessário que tudo o que está à nossa volta também cresça.


E o cúmulo da nossa ignorância é que não nos damos conta de que, por mais que a nossa luz seja abafada, por mais que nós a sabotemos com sentimentos pequenos, mesquinhos e egoístas, ela nunca deixa de brilhar. Deus não permite que ela se apague por completo, porque sabe que, mais cedo ou mais tarde, nós vamos despertar desse torpor doentio e vamos precisar dessa pequena faísca para saber por onde recomeçar.


Apesar de sermos nós os necessitados, é Deus que jamais perde a fé e a esperança em nós. Ele permanece sempre acreditando no nosso potencial, na nossa capacidade de vencer e no nosso discernimento para escolher o que é certo. Ele sabe que nada pode sobrepor-se à nossa natureza divina e espera, incansavelmente, pelo nosso despertar. Ele nunca nos abandona, muito embora nós mesmos, às vezes, façamos questão de virar-lhe as costas para reclamar e nos revoltarmos por acharmos que Ele nunca está por perto quando precisamos da Sua ajuda.


Como crianças mimadas, não percebemos que Ele está sempre ali, no mesmo lugar, à mesma distância, bastando que nós mesmos nos viremos para nos aquecermos ao sol do seu amor infinito, evitando as sombras do nosso orgulho e o frio do nosso egoísmo.


O brilho de cada um é uma faísca do próprio brilho de Deus em suas criaturas. Cada vez que tentamos apagar o brilho de alguém, é contra o brilho de Deus que agimos. Cada vez que impedimos alguém de crescer, é contra a força de Deus em nós que agimos. Cada vez que sabotamos a felicidade de alguém, é a nossa própria felicidade que sabotamos, já que a fonte de toda a felicidade é uma só: o AMOR universal, DEUS.


Cada vez que deixamos a nossa serpente interna engolir o vaga-lume do próximo, é um farol a menos de que dispomos para iluminar a nossa estrada. Quando, na verdade, deveríamos sempre nos lembrar que, por menor que seja a luz do próximo, ela sempre poderá nos servir, ao menos, como a pequena chama bruxuleante que acende outra vela antes de se apagar.

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