domingo, 13 de junho de 2010

NÃO SOU ANJO, NEM DEMÔNIO


Às vezes eu acho que já vi de tudo, que já não me decepciono mais com as pessoas, que nada mais me choca ou causa mal estar. No entanto, quando eu menos espero, a vida vem, me dá uma rasteira, põe o dedo na minha cara e diz: "Tome!", mostrando como é limitada ainda minha percepção e compreensão das coisas...


Isso cansa, às vezes, porque parece que, por mais que a gente caminhe, nunca sai do lugar. Parece sempre que, por mais que a gente tenha subido degraus, está sempre no mesmo ponto da escada, olhando tudo da mesma perspectiva.


Não sou anjo, nem demônio, e, por isso mesmo, prefiro pensar em mim mesmo como alguém tão capaz de acertar e de errar quanto qualquer outra pessoa. Gosto de acreditar que serão dadas a mim as mesmas oportunidades que aos outros. Quero acreditar que somos todos iguais, em direitos e deveres, em necessidades e buscas, pois, de outra forma, não faz sentido pra mim todo o esforço que fazemos para sermos pessoas melhores. Prefiro sempre pensar que estou lado a lado caminhando com todas as outras pessoas.


E, justamente por não ser anjo, decepciono-me às vezes com as pessoas ao notar que, muitas delas, tentam usar a sinceridade e a honestidade de outras pessoas pra satisfazer suas próprias necessidades de aceitação, tentando justificar suas próprias atitudes, suas próprias escolhas e sua própria história.


Decepciono-me ao perceber que muita gente vê outras pessoas como se fossem de seu uso exclusivo, como se devessem enxergar as coisas pelos olhos deles, sem direito a usar os próprios olhos e lentes para olhar o mundo e interpretá-lo.


Decepciono-me com a capacidade que algumas pessoas têm de simplesmente ignorar o que está por trás das roupas, das palavras, dos gestos, da aparência e da cultura, sem se importar com o que está por dentro, bem lá dentro.


Decepciono-me com o desejo quase incontrolável que algumas pessoas têm de estragar o que é bonito, o que é puro e positivo, apenas porque têm medo de ser rejeitadas ou colocadas de lado, porque têm medo de ser diminuídas ou apontadas, porque têm receio de serem menos amadas.


Decepciono-me com outras tantas pessoas que cobram de outras que julgam mais fortes ou mais sábias, sem atentar para o fato de que também são humanas, também sofrem e também se destróem emocionalmente em muitas situações.


Decepciono-me ao ver que muito do que se diz está sempre sendo analisado para ser usado contra a própria pessoa e nunca a favor de alguém, a favor de algo bom, a favor de algo fora dela.


Decepciono-me quando vejo alguém tentando fazer a diferença para melhor e as pessoas insistindo em usar essa diferença para o pior, limitando idéias, restringindo sentimentos e minando forças.


Decepciono-me quando vejo uns abraçando outros, usando esse abraço como escudo e justificativa para seus próprios sentimentos.


Decepciono-me quando vejo pessoas assumindo posturas apenas para se justificarem perante os outros, nunca para serem coerentes consigo mesmas ou com a sua consciência.


Não sou anjo, nem demônio, porque sou imperfeitamente humana, ou humanamente imperfeita, tentando crescer, aprender, participar e colaborar.


Não sou anjo, nem demônio. Sou apenas alguém que tem aprendido, a duras penas, que as pessoas também não são perfeitas e que muitas delas nem sequer se importam com isso ainda.


Sou apenas alguém que fala o que sente e paga caro por isso, mesmo quando fala com o coração cheio de luz, tentando desintegrar alguma mágoa que, como ser humano, possa trazer lá dentro.


Sou apenas alguém que luta com os próprios erros, mas que dorme tranquila todas as noites, graças a uma consciência limpa das más intenções de que tentam responsabilizar-lhe.


Sou apenas alguém que, sem ser anjo ou demônio, tem um pouco dos dois todos os dias, nas mínimas e nas grandes coisas.


Sou apenas alguém que ainda acredita que amigo sincero é aquele que aponta os erros e ajuda a transformá-los, e não aquele que se limita a olhar superficialmente para ver apenas o que é bom e agradável aos seus olhos, sem precisar correr o risco de dar sua face a tapa cada vez que vê algo em desvio na conduta daquele que considera como amigo de verdade.

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